Neste 20 de setembro, Dia do Gaúcho, a ligação entre Rio Grande do Sul e Paraná vai muito além do chimarrão, dos CTGs e das tradições mantidas por milhares de famílias.
Entre as décadas de 1940 e 1970, um intenso movimento migratório levou agricultores gaúchos, muitos deles descendentes de italianos e alemães, para novas áreas no Oeste e Sudoeste do Paraná. Eles se somaram às populações indígenas, caboclas e a outros grupos que já ocupavam o território, participando de uma profunda transformação econômica, demográfica e agrícola dessas regiões. Estudos sobre o Sudoeste apontam que a ocupação da porção mais ocidental ganhou força a partir dos anos 1940 principalmente com migrantes vindos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Décadas depois, cidades surgidas ou fortemente desenvolvidas nesse processo estão no centro de algumas das principais cadeias do agronegócio paranaense.
A procura por novas terras
Um dos fatores que impulsionaram a migração foi a busca por terras para as novas gerações das famílias rurais.
Com propriedades sendo divididas entre filhos e a disponibilidade de áreas agrícolas ficando mais limitada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, famílias começaram a procurar novas fronteiras agrícolas.
O Paraná aparecia como uma alternativa.
Nas décadas de 1950 e 1960, a migração organizada de gaúchos para o Oeste paranaense foi particularmente intensa. Era comum a mudança ocorrer em grupos de parentes, amigos e vizinhos, que compravam lotes próximos e reconstruíam no novo território suas redes familiares e comunitárias. Registros históricos situam o início dos anos 1970 como o encerramento dessa fase mais intensa da colonização gaúcha organizada no Oeste.
Governo criou colônia para atrair agricultores
No Sudoeste, uma peça fundamental desse processo foi a criação, em 1943, da Colônia Agrícola Nacional General Osório (CANGO).
A iniciativa do governo federal fazia parte da política de ocupação do interior e tinha, entre seus objetivos, atrair para o Sudoeste paranaense o excedente de mão de obra agrícola do Rio Grande do Sul.
A estrutura oferecia aos colonos condições para instalação, como terras, madeira, ferramentas, sementes e assistência. O número de famílias atendidas cresceu rapidamente: eram 467 em 1947 e 2.725 em 1956, segundo dados históricos citados em estudos sobre a questão agrária regional.
Essa expansão, porém, ocorreu em meio a uma complicada disputa pela propriedade das terras.
Colonos chegaram à região que hoje é Toledo em 1946
No Oeste, empresas privadas também tiveram papel importante na ocupação territorial.
Um caso emblemático é Toledo.
Em 27 de março de 1946, chegou à região uma primeira caravana de trabalhadores oriundos de São Marcos, na Serra Gaúcha. O grupo havia sido enviado pela Industrial Madeireira Colonizadora Rio Paraná, a Maripá, que conduziu parte do processo de povoamento organizado daquela área.
Depois deles, novas famílias vindas principalmente do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina se instalaram na região.
O modelo adotado incluía a comercialização de propriedades relativamente pequenas para agricultores familiares, que inicialmente enfrentaram mata fechada, pouca infraestrutura e grandes distâncias dos centros consumidores.
Da derrubada da mata à produção agrícola
A agricultura praticada pelos primeiros migrantes tinha características bastante diferentes do sistema altamente tecnificado encontrado atualmente no Oeste e no Sudoeste.
As famílias precisavam abrir áreas, construir moradias e estradas e produzir inicialmente boa parte dos alimentos necessários à própria sobrevivência.
Milho, feijão, trigo, criação de suínos e outras atividades passaram a integrar a economia dessas propriedades.
Com o tempo, a estrutura agrícola evoluiu. A mecanização ganhou espaço, cooperativas cresceram e a criação animal passou a se integrar cada vez mais à produção de grãos.
Esse processo ajudou a formar uma característica que permanece muito presente no Paraná: pequenas e médias propriedades fortemente ligadas a cooperativas e agroindústrias.
O conflito que marcou o Sudoeste
A ocupação do Sudoeste também foi marcada por uma das principais disputas fundiárias da história paranaense.
A situação das terras envolvia conflitos jurídicos entre União, Estado, empresas privadas e os próprios agricultores.
Em 1957, a tensão culminou na chamada Revolta dos Posseiros, também conhecida como Levante dos Colonos. Agricultores e posseiros se mobilizaram contra companhias que reivindicavam terras já ocupadas e contra episódios de violência promovidos na disputa fundiária.
A regularização avançou nos anos seguintes. Em 1962, foi criado o Grupo Executivo para as Terras do Sudoeste do Paraná (Getsop), responsável por atuar na regularização fundiária e emissão de títulos na região.
A influência não ficou somente na lavoura
A migração também deixou uma forte herança cultural.
O chimarrão, a música tradicionalista, as cavalgadas, os churrascos e principalmente os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) passaram a fazer parte da vida de diversas comunidades paranaenses.
Em muitas cidades do Oeste e do Sudoeste, a identidade regional acabou reunindo elementos paranaenses, gaúchos, catarinenses, indígenas, caboclos e das diferentes correntes de imigração europeia.
Essa influência permanece décadas depois da fase mais intensa da migração.
Regiões se tornaram potências do agro
O contraste histórico chama atenção.
Territórios que, há cerca de 80 anos, recebiam famílias em busca de pequenas áreas para começar uma nova vida hoje concentram algumas das maiores estruturas agrícolas, cooperativas e agroindustriais do Paraná.
Toledo é um exemplo dessa transformação. A própria história oficial do município registra a chegada, em 1946, dos pioneiros vindos da Serra Gaúcha e a posterior consolidação de uma economia fortemente baseada no campo.
O mesmo processo, com características próprias, ocorreu em diferentes municípios do Oeste e do Sudoeste.
Por isso, neste 20 de setembro, a história do gaúcho também ajuda a contar uma parte importante da história do campo paranaense.
A data lembra o início da Revolução Farroupilha, em 20 de setembro de 1835, e segue como um dos principais símbolos da identidade cultural do Rio Grande do Sul. Em 2026, os festejos oficiais continuam sendo realizados com desfiles, CTGs, piquetes e outras manifestações tradicionalistas.
Crédito da notícia: Conversa de Colono, com base em pesquisa histórica e fontes institucionais
